quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Entrevista: Ronaldo Mota

Inovar deve ser um objetivo central da educação contemporânea

Decorar fórmulas e datas faz parte do passado da educação. Mais do que memorizar, hoje é fundamental estimular o pensamento inovador. Ronaldo Mota, que já teve passagem pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), hoje ocupa a cátedra Anísio Teixeira, no Instituto de Educação da Universidade de Londres.

Seu trabalho na Inglaterra passa justamente por pensar saltos qualitativos na educação, experiência que traz na bagagem desde que foi secretário nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do MCTI. De Londres, o professor aposentado da Universidade Federal de Santa Maria falou sobre qualidades, oportunidades e desafios do ensino. Mota é físico, e foi secretário nacional de Educação à Distância do Ministério da Educação (MEC).

Que medidas devem ser tomadas na educação básica para que aumente a porcentagem de universitários do Brasil?

Ronaldo Mota - Inovação é a palavra-chave para um desenvolvimento social e econômico sustentável. Não há país que possa competir em inovação sem ter uma educação de qualidade e acessível. Assim temos, além do problema da qualidade, o fato de somente 3% da população estarem cursando ensino superior. Talvez sejam esses os dois grandes sérios indicadores negativos de nossas limitações, mas são ambos superáveis. A boa notícia é que estamos crescendo esse percentual, mas precisamos crescer muito mais rápido e ganhando qualidade.

As escolas daqui já sabem o que é inovar?

Mota - A maioria das escolas infelizmente não sabe o que é inovação. Pensam que é modernizar comprando equipamentos. Inovação hoje é o motor que gera conhecimento, que ajuda a moldar os programas de pesquisa e o desenvolvimento tecnológico. Entre elas, aptidão desenvolvida para aprendizagem independente, espírito empreendedor e capacidade de iniciativa, aprender a trabalhar em equipe e com visão solidária, não ter medo de novas tecnologias e gosto por enfrentar desafios e imprevistos, saber falar e ouvir sem preconceitos e com espírito de tolerância desenvolvida e, por fim, mas não menos importante, extrema paixão pela cultura, especialmente pelas artes, e pelos esportes. Enfim, atributos essenciais que normalmente são subestimados, quando não reprimidos, pelas escolas.

O intercâmbio entre instituições, comum nas universidades, é uma iniciativa que poderia ser aplicada aos professores e educadores dos ensinos Fundamental e Médio?

Mota - Há coisas que se aprende quando no ensino superior, outras não serão nunca despertadas se não forem devidamente estimuladas na educação básica. Preparar pessoas com vocação para inovação vem da formação básica, seja na escola diretamente, no ambiente familiar ou mesmo nas ruas.

Os altos investimentos em educação superior e em pós-graduação tem os resultados esperados nas instâncias anteriores de ensino? Existem muros a serem derrubados entre universidades, escolas e sociedade?

Mota - O Brasil em termos de qualidade é uma pirâmide de cabeça para baixo, sendo a melhor qualidade na pós-graduação e a pior nos níveis na educação básica. Este modelo não tem futuro e carece de sustentabilidade, inclusive para a pós-graduação. Temporariamente pode até iludir, mas não há consistência.

Muito se fala sobre o que o Brasil tem a aprender com outras nações. Nós já temos algo a ensinar? O que? A quem?

Mota - No mundo globalizado, todos aprendem e todos ensinam. Da mesma forma, temos a opção de não aprender nunca. Na produção de alimentos e no combate à pobreza extrema, estamos ensinando o mundo como fazer. Na produção industrial clássica, bem como na educação em geral, com as honrosas exceções de praxe, nos recusamos a aprender.

Quais as principais diferenças que o senhor notou entre o ensino no Brasil e na Inglaterra? Em quais desses pontos o Brasil está melhor e em quais está pior?

Mota - A Inglaterra tem um passado que conta a seu favor e o Brasil tem um futuro que ajuda muito. Nesse sentido, eles são os opostos. O presente deles é turbinado pelo que o passado representa. Nós temos um presente que o melhor argumento é o que podemos ser no futuro. Essa diferença conta a nosso favor se soubermos nos comportar em educação e inovação.

A produção e a inovação de tecnologias móveis, de certa maneira já presente no Brasil, pode refletir positivamente nas práticas de ensino? De que maneira?

Mota - Entendendo que os mais jovens já adotaram uma nova linguagem, incorporando plenamente as tecnologias digitais, enquanto o ambiente escolar, incluindo os professores e dirigentes educacionais, ainda não cruzaram o século passado. Temos que enxergar os professores como designers de programas e objetos de aprendizagem, capazes de fazer pleno uso das novas tecnologias para ensinar melhor e aprender sempre, sem receio de errar e dispostos a enfrentar desafios. Hoje nossos professores não têm esse estímulo e nem a formação adequada. Quando muito eles têm as máquinas e alguns instrumentos, os quais sozinhos, sem a adequada formação dos professores, são nada.

O Ensino a Distância (EAD) pode ser uma ferramenta de ensino auxiliar para a educação nos níveis fundamentais e médio?

Mota - Claro que sim. Não me agrada a separação abrupta usual que o país adotou entre modalidades presencial e a distância. O mundo contemporâneo caminha em direção a uma educação flexível, incorporando as boas contribuições dos ensinos presencial e a distância e estimulando nossos estudantes a estudarem antes das aulas, tornando-as muito mais dinâmicas, prazerosas e eficientes. Simples: disponibilizar os conteúdos antes, criar ambientes virtuais interativos nos cursos e estudar antes das aulas. Sabemos o quão difícil é mudar uma cultura, mas sem mudanças não há inovação.

Entrevista: Fernando Reimers

(Eleonora Villegas Reimers/Divulgação)

Os desafios da educação no século 21

Construir uma educação de qualidade é um desafio em que o Brasil ainda tem muito a evoluir. Para tratar sobre os desafios do país neste tema, entrevistamos Fernando Reimers, um dos maiores especialistas do mundo no assunto.

Professor de Educação Internacional da Fundação Ford e diretor do Programa de Políticas Educacionais Internacionais da Universidade de Harvard, Reimers está atualmente no Brasil em um convênio com a Universidade Federal de Juiz de Fora. Confira abaixo o que ele tem a dizer sobre tecnologia, inovação e liderança em educação.

Que desafios o Brasil precisa encarar para ter um ensino de alto padrão?

Fernando Reimers - A sociedade brasileira reconhece que construir um sistema educacional de ponta é central para sustentar o desenvolvimento necessário para diminuir a pobreza, promover inclusão social e fomentar a prosperidade. Há uma clara prioridade pela educação no país, tanto por parte do governo quanto pela sociedade civil. Um importante desafio em quaisquer nações com altas perspectivas educacionais é a capacidade de executar e implementar mudanças. É notável que, dentre todo o entusiasmo pela educação brasileira, existe uma distinção entre as organizações e instituições comprometidas com sua implementação e execução e aquelas satisfeitas em só fazer parte da discussão.


O Rio Grande do Sul tem os níveis mais altos de repetência no Ensino Médio. O senhor pensa que reprovar estudantes é uma via para que eles aprendam mais e melhor?

Reimers - Altos índices de reprovação são reflexo de uma personalização inadequada da educação, que não consegue atender a necessidade desses estudantes. Nós vivemos em uma época extraordinária em que o desenvolvimento da ciência do aprendizado, o conhecimento sobre ensino e liderança escolar, e diversas inovações pedagógicas e educacionais permitiram, através do desenvolvimento de novas tecnologias, personalizar a educação muito mais do que era possível no passado. Qualquer sistema de ensino com altas taxas de repetência deveria desenvolver oportunidades de aperfeiçoamento do currículo, de materiais didáticos e pedagógicos. Isso passa pela qualificação de professores e líderes escolares.


Quais competências e habilidades o professor do século XXI deve ter para ministrar aulas melhores e mais interessantes?

Reimers - No século XXI, as escolas devem ter como produto não somente o conhecimento de fatos, mas a capacidade de usar esses dados para resolver problemas, transferindo conhecimento de uma disciplina para uma gama de contextos. Também é importante desenvolver o pensamento inovativo, criativo e crítico, o aprendizado contínuo, a comunicação efetiva, além de ser consciente e persistente, tentando fazer o melhor trabalho possível. Também é necessário ser capaz de disciplinar, de lidar com as emoções alheias, de ter competências sócio-emocionais. Para auxiliar os estudantes a desenvolver essas competências, os professores precisam pensar seu papel de maneira diferenciada.

O governo precisa de muito dinheiro para ter uma boa educação ou existem soluções criativas que podem superar problemas econômicos? Qual o papel da tecnologia nesse aspecto?

Reimers - Com certeza não é possível tirar leite de pedra, e recursos são necessários para uma educação de alta qualidade. Precisa-se dinheiro para criar estruturas de educação adequadas, para remunerar professores e diretores de maneira justa, para qualificar os profissionais da educação, para apoiar inovações. Isto dito, os sistemas de educação com melhor desempenho no mundo todo não são aqueles que gastam mais por estudante, mas sim aqueles que gerenciam o dinheiro inteligentemente, implementando abordagens efetivas e inovativas de educação. É por isso que é tão importante desenvolver lideranças educacionais.

Quais as mais importantes lições que o senhor aprendeu sobre educação em sua carreira?

Reimers - 1) A Educação deve cultivar a ação, a voz e a eficácia das pessoas. Nós precisamos auxiliar os educadores a desenvolver suas habilidades de resolução de problemas. Nós precisamos substituir o viés contemplativo, muito presente na educação, pela ênfase no cultivo de uma educação orientada para ação, pela disposição de criar e de transformar o mundo e nossas circunstâncias. Pedagogias capazes de cultivar o aprendizado incluem ensino baseado em projetos, aprendizado expedicionário, engenharia da educação, educação empreendedora, estúdios de design e workshops.

2) A educação deveria cultivar excelência acadêmica, desenvolvimento de caráter e competência sócio-emocional simultaneamente. Estudantes deveriam desenvolver bases éticas que fundamentem suas habilidades e disposição de raciocinar moralmente e agir responsavelmente, e a capacidade de de trabalhar em grupo.

3) As habilidades e motivações de aprender de maneira contínua, independente e em grupo, e também de reaprender, tornaram-se mais importantes. O aprendizado da educação online deve ser acessível a todos os estudantes, pois assim eles estão preparados para usar esse aprendizado para toda a vida. Estudantes deveriam ter vivência de diferentes modos de ensino e aprendizagem no ambiente escolar, aprendendo com os professores, mas também com seus colegas, e também ensinando a eles.

4) A globalização cria novas demandas de cognição e de habilidade, e portanto novas oportunidades de educação, tanto para escolas quanto para professores. Para participar, como cidadãos ou produtores, todos precisam ser capazes de entender a globalização, ter curiosidade sobre os negócios globais, sabendo como aprofundar o conhecimento, quando necessário, e ter capacidade de comunicação, trabalho produtivo e respeitoso entre pessoas de diferentes países e realidades culturais.

5) No ato de equilíbrio que a educação representa entre tradição e inovação, nós precisamos estimular a pauta de inovação ajudando os estudantes a se antecipar e preparar para o futuro, assim como para inventá-lo. Isso significa que o cultivo de competências inovadoras deve ser um resultado desejado pela educação, e para alcançar esse objetivo, nós precisamos de abordagens e culturas inovadoras e de lideranças em instituições de ensino.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Programa de Capacitação a Distância para Gestores Escolares.

A versão Online tem origem no Progestão - Programa de Capacitação a Distância para Gestores Escolares, de formação continuada para gestores escolares que atuam em escolas públicas. A proposta, inovadora, é reconhecida em todo país por sua excelência. O trabalho é desenvolvido em parceria com secretarias de Educação, e com o apoio da Fundação FORD, da Universidad Nacional de Educación a Distancia - UNED e da Fundação Roberto Marinho.

Tanto o Progestão quanto o Progestão Online foram concebidos com base em cinco pressupostos que balizaram o conteúdo e a metodologia:

  • paradigma da gestão focada no sucesso da aprendizagem dos alunos e na melhoria do seu desempenho;
  • gestão democrática da escola pública, privilegiando os processos de participação dos vários segmentos da comunidade no Projeto Pedagógico da escola;
  • programa comum, para assegurar um padrão de qualidade na formação dos gestores, e flexível, para se adequar às necessidades e diversidades das escolas do país;
  • formação continuada, em serviço, articulada à prática cotidiana dos gestores, tendo por base resultados de pesquisa prévia realizada junto a escolas públicas;
  • formação voltada para o desenvolvimento de competências profissionais e concebida como elemento impulsionador do aprender a aprender, da auto-capacitação, do aprender a fazer coletivo e da formação de redes entre gestores e escolas.
Acesse o link abaixo e confira cada um dos 10 módulos. Recomendo o Módulo IV para os encontros de formação continuada dos profissionais da escola.

Bom estudo!
Silvana Caixêta

Bem utilizados, games estimulam ensino.

Escolas usam jogos como ferramentas pedagógicas para despertar o interesse de alunos que nasceram na era da internet

Fonte: O Globo (RJ)
Os Alunos do 9º ano do Ensino fundamental do Colégio Bandeirantes , em São Paulo, passaram boa parte do último bimestre jogando na Escola "SimCity", game que simula a administração e crescimento de uma cidade. Eles não estavam matando aula para se divertir. A atividade foi sugerida pela coordenação pedagógica da Escola, depois de aulas em que haviam debatido problemas de lixo, energia e transporte da capital paulista.
Iniciativas como essa ainda são raras nas Escolas brasileiros, mas desafiam a lógica de que videogame e sala de aula não combinam. Quando bem inseridos num contexto pedagógico, jogos, tanto os comerciais quanto os criados com fins educativos, são preciosos aliados dos Professores nas mais variadas disciplinas. 
- Escolhemos esse jogo (SimCity) porque achamos que seria uma maneira de o Aluno aplicar o que foi aprendendo ao longo do ano nas aulas e simular uma cidade. Percebemos que é motivador. Eles gostam, e mesmo os mais resistentes ficam animados. Os resultados não necessariamente se refletem em notas, mas percebemos que eles conseguem trabalhar lógica e raciocínio, entre outras habilidades - diz a coordenadora de Tecnologia Educacional do Colégio Bandeirantes, Cristiana Mattos Assumpção. 
A aluna do Bandeirantes Beatriz Rossi, de 14 anos, não costuma jogar videogame, mas gostou da experiência na Escola. 
- Conseguimos colocar em prática, no jogo, o que aprendemos nas aulas. Às vezes, se um assunto fica muito na teoria, não entendemos a importância dele. Quando usamos o game, vimos melhor por que as coisas na cidade aconteciam - diz. 
Bastante popular, o jogo "Angry Birds", em que pássaros são lançados como dardos, já está sendo usado por Professores de Física para ensinar sobre trajetória, angulação, lançamento e resistência de materiais. Francisco de Assis Nascimento Júnior dá aulas no Colégio Brasil-Canadá e acredita que o "Angry Birds" ajuda os estudantes a visualizarem melhor os conceitos da disciplina. Após explicar a matéria para os Alunos, ele fala sobre a física do game para os Alunos, que depois têm que responder a um questionário sobre o tema enquanto jogam e experimentam as diferentes trajetórias dos pássaros na tela. 
No ano passado, Nascimento Júnior usou o "Angry Birds" nas aulas que deu no colégio Guilherme Dumont Villares, mas não pôde fazê-lo em outra Escola privada, que adota um sistema de apostilas, e diz que a recepção dos Alunos das duas instituições foi diferente. 
- Quando eu falo a palavra "oblíquo", o Aluno já se assusta. Mas, se ele vê como esse conceito funciona brincando, percebe que é simples. A motivação dos estudantes muda muito, porque as coisas começam a fazer sentido para eles. Temos uma geração ávida por tecnologia e comunicação. E, no "Angry Birds", a linguagem é visual - afirma o Professor. 
Mitologia grega com "God of War"
Professor de Língua Portuguesa na Escola Sulamericana, em Salvador (BA), Marcos Paulo Pessoa percebeu que poderia usar jogos na sua disciplina quando Alunos, numa aula sobre narrativas mitológicas, ficaram mais interessados do que o normal e disseram que já conheciam algumas histórias porque jogavam "God of War", que é considerado um game de violência. 
- Usei na sala partes do jogo, cenas não jogáveis que narram a história, tratam da mitologia grega e não trazem violência. Trabalhei-as com os Alunos. Mostrei que as histórias mitológicas têm mais de uma versão, porque são contadas oralmente - explica Pessoa. 
O Professor também pediu aos Alunos que escrevessem textos sobre a lógica do jogo "Counter-Strike", que envolve estratégia e organização de equipes, de maneira a criar um outro jogo, mas de cartas. 
No Rio, a prefeitura publicou para as Escolas um portal de conteúdo educacional chamado Educopédia, em que, além de aulas em vídeo, há vários jogos pedagógicos para o Ensino fundamental, inclusive alguns que ajudam na Alfabetização. 
Francisco Velasquez é Professor de História da Escola Municipal Pereira Passos, no Rio Comprido, e usa os jogos da Educopédia com os Alunos. 
- Depois que já ensinei a matéria e preciso trabalhar o assunto de forma lúdica, uso os minigames para reforçar o conteúdo que foi dado. No 6º ano, por exemplo, abordamos a descoberta do fogo e a arqueologia. O jogo faz perguntas, e o Aluno tem que dar as respostas - afirma Francisco Velasquez. 
Para o subsecretário de Assuntos Estratégicos da Secretaria municipal de Educação do Rio, Rafael Parente, os games, assim como a internet, atraem a atenção dos jovens para a Educação. 
- Uma das maiores reclamações dos Professores é sobre o desinteresse dos jovens. Só que eles já nasceram na época da internet e gostam de jogos, de música e da grande rede. Tentamos aproximar o que eles gostam do ambiente educacional e explorar o conteúdo por meio de coisas que os atraem - afirma Parente. 
Professora e pesquisadora da área de jogos da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Lynn Alves trabalha no desenvolvimento de games educativos, que são testados em Escolas públicas do estado, mas diz que essa indústria ainda é pouco desenvolvida no Brasil. Segundo ela, o governo da Bahia encomendou jogos educativos a especialistas, e o governo federal os financiou em 2006. 
- Há Escolas que ainda resistem aos games. Quando alguém diz que está trabalhando com jogos em sala de aula, há quem ache que o que se quer é que a sala vire uma lan house . Não é isso. Queremos mais uma linguagem na Escola - afirma Lynn. 
Autor de um livro sobre jogos e Educação e Professor da Escola de Engenharia e Tecnologia da Universidade Anhembi Morumbi, João Mattar diz que os games educativos ficaram com a fama de chatos, pois, na cabeça de muitas crianças, Educação e diversão são coisas diferentes. Além disso, muitos jogos educativos têm qualidade gráfica inferior à dos comerciais. Outros fatores que afetam o uso de games nas Escolas são a falta de familiaridade de muitos Professores com os jogos e o fato de que muitas Escolas públicas sequer têm computadores ou internet. 
Mesmo assim, segundo Mattar, nos últimos dois anos, há uma aceitação maior do uso de videogames na Educação. 
- O "Horizon Report", relatório produzido por duas instituições americanas, aponta o game educacional como uma tecnologia que será mais adotada nos próximos dois anos - afirma.
"Jogos usam técnicas poderosas para ajudar na concentração"
Especialista americano diz que engajamento dos jovens nas disciplinas aumenta com o recurso 
O Professor de Tecnologias de Aprendizagem das Escolas de Educação e de Informação da Universidade de Michigan, Barry Fishman, afirma que os games fazem os Alunos ficarem mais engajados e ajudam a desenvolver a habilidade de solucionar problemas de forma criativa. 
O GLOBO: Os games podem melhorar o processo de aprendizagem? Como? 
BARRY FISHMAN: Os jogos podem ser eficazes em apoiar a aprendizagem porque um game bem feito usa técnicas motivacionais poderosas para fazer com que os estudantes se concentrem no assunto em questão. Em compensação, um game feito de maneira pobre pode ser ruim para a aprendizagem, porque pode reforçar ideias erradas ou entreter estudantes sem fazer com que eles tenham foco nos aspectos mais importantes do que se quer ensinar. 
Os estudantes de fato aprendem mais quando usam games na sala de aula, ou a aula apenas fica mais divertida? 
FISHMAN: Não gosto de usar a palavra "diversão" quando falo de games e Educação. Prefiro usar "engajamento". Os Alunos aprendem mais com os bons games porque eles ficam profundamente engajados com a atividade de aprendizagem, e isso é necessário; é o primeiro passo no processo de Ensino. Às vezes, chegar a um empenho profundo requer um grande esforço, é quase uma luta, e nós não descreveríamos a luta como divertida, assim como correr uma maratona ou escalar uma montanha. Mas nós podemos descrever essas atividades como profundamente satisfatórias e engajantes. 
O que é melhor: usar games educacionais ou comerciais? 
FISHMAN: Não há melhor nesse caso, depende dos objetivos que tentamos alcançar. Há excelentes games em várias áreas. Um dos meus favoritos, "The Lure of the Labyrinth", trabalha a matemática. Nele, os Alunos têm que resolver uma série de desafios de lógica e enigmas relacionados a tópicos de matemática, como o cálculo de proporções, por exemplo.
Alunos que usaram games para aprender na Escola têm resultados melhores que aqueles que não usaram? 
FISHMAN: Ainda não há bons estudos e pesquisas que façam essa comparação. Por outro lado, existem múltiplas maneiras de aprender um assunto, e, de maneira geral, se os Alunos ficam mais motivados, eles vão efetivamente aprender mais. 
Os games poderiam tornar os estudantes mais inteligentes, no fim das contas? 
FISHMAN: Qualquer atividade permanente em que alguém se concentre em tarefas desafiadoras pode aumentar a sua inteligência. Os jogos podem fazer isso, pois ajudam a desenvolver habilidades para a solução de problemas de forma criativa, além de estimularem a coordenação e a disposição para correr riscos. 
O senhor acha que os Professores, em todo o mundo, deveriam recorrer mais aos videogames para ajudar no processo educativo? 
FISHMAN: Meu interesse não é especificamente no uso de games nas salas de aula. É em tentar entender o que faz os games funcionarem como ambientes poderosos para motivação e engajamento, e como criar alguns desses elementos nas Escolas de maneira mais geral. O que precisamos fazer é tornar a Escola mais motivadora. Vamos ajudar a melhorar os resultados educacionais se encontrarmos maneiras de reengajar os estudantes. Se os games ajudam nesse processo, então eu digo: "Ótimo!" 
Nos Estados Unidos, o uso de games no processo educacional já se tornou uma prática comum? 
FISHMAN: Eu não diria que eles são comuns nas salas de aula, mas certamente está aumentando o interesse em usá-los como parte do aprendizado.
 

terça-feira, 29 de maio de 2012

"Liderança é a alavanca que impulsiona melhorias"

"Liderança é a alavanca que impulsiona melhorias"

Irma Zardoya, presidente de organização americana que treina professores para serem diretores, explica a importância dos bons líderes

Fonte: Veja.com
Uma pesquisa da Fundação Victor Civita de 2011 revelou que 42% dos diretores de escolas públicas brasileiras são escolhidos por influência política. É uma pena. Em Nova York, o trabalho da organização Leadership Academy (Academia de Liderança) aponta que os maiores avanços no desempenho escolar dos alunos são obtidos com diretores muito bem treinados para a função, profissionais que, além de bons gestores, conhecem o conteúdo programático de suas unidades de ensino. Criada em 2003, a instituição ajudou a formar um em cada seis diretores de escolas públicas da cidade americana, que estão concentrados principalmente em áreas de maior vulnerabilidade, como o Bronx. “Liderança é a alavanca que impulsiona a mudança em uma escola. O diretor define a melhoria e alinha tempo, dinheiro e recursos”, afirma Irma Zardoya, presidente da Academia. Irma, que participa de um ciclo de debates no Brasil, na próxima segunda-feira, promovido pela Fundação Itaú Social, concedeu a seguinte entrevista ao site de VEJA:
Qual o contexto que permitiu a criação da Academia de Liderança? Há nove anos, Michael Bloomberg, prefeito de Nova York, e Joel Klein, chefe do Departamento de Educação da cidade, perceberam que havia a necessidade de líderes escolares apaixonados, dedicados e inovadores. Além disso, muitos diretores estavam para se aposentar e não havia líderes disponíveis para essas escolas. Foi quando a comunidade empresarial e as principais organizações filantrópicas se uniram e contribuíram para o desenvolvimento da Academia de Liderança de Nova York, com um investimento de 84 milhões de dólares.
Como se mantêm? Somos uma organização sem fins lucrativos que presta serviço aos sistemas de ensino e recebe por isso. Também recebemos dinheiro de algumas fundações e do governo.
Como é a seleção dos possíveis diretores? O que procuram? Qualquer pessoa que queira fazer parte do nosso processo seletivo precisa ter, no mínimo, três anos de experiência com ensino. É o que estado exige. Há uma rigorosa ficha de seleção a ser preenchida. Os aprovados são convocados para uma dinâmica em grupo, na qual são colocados de frente a um problema e questionados - como grupo - sobre como lidar com ele. Precisamos ter certeza de que o candidato sabe escrever e se expressar bem, é um eficaz solucionador de problemas e tem habilidade para lidar com as pessoas. Depois, os melhores são convidados para uma entrevista individual, em que devem apresentar trabalhos acadêmicos, e são questionados sobre questões pedagógicas. Temos um guia que orienta os nossos processos seletivos e aponta o que precisamos considerar nos candidatos. Os principais pontos são: comportamento pessoal, responsabilidade, resiliência, liderança, capacidade de se comunicar, de resolver problemas e de supervisionar os funcionários; cultura, gestão de tempo e tecnologia.
Como é o treinamento dado pela academia? Oferecemos um programa de 18 meses, dividido em três fases. A primeira expõe os participantes a rigorosas simulações do que é ser um diretor; a segunda é uma fase de residência em que ele fica em uma escola por 10 meses e convive duas vezes por semana com um diretor para aprofundar seu conhecimento em campo. Por fim, a terceira etapa é customizada para atender às necessidades da escola e do profissional para efetuar a transição de poder.
Como uma boa liderança pode mudar a realidade de uma escola? A liderança é a alavanca que impulsiona a mudança em uma escola. O diretor define a melhoria e alinha tempo, dinheiro e recursos para que seu objetivo seja atingido. Um estudo do Instituto de Política Educacional e Social, da Universidade de Nova York, mostra que os formados pela academia estão atuando em escolas que têm mais desafios e ainda assim conseguiram que os alunos tivessem um aprendizado mais acelerado em língua inglesa e matemática. Os diretores têm a oportunidade de implementar sistemas de ensino com foco no aprendizado dos alunos, o que inclui: selecionar professores altamente qualificados, desenvolver programas curriculares de ensino e avaliação que se alinhem com as necessidades do estudante, e dar suporte para as relações de colaboração entre os funcionários e entre eles e os alunos.
Como os diretores devem colaborar com os professores? O diretor deve guiar o professor na tomada de decisões curriculares e de ensino. É fundamental que dê aos profissionais a possiblidade de trabalharem juntos para resolverem os problemas de aprendizagem dos alunos. Os professores devem avaliar juntos o que e como estão ensinando, visitar uns aos outros nas salas de aula e trocar informações. Um diretor eficaz é aquele que fornece ‘feedback’ aos professores e os orienta sobre o seu trabalho e a melhor forma de melhorá-lo. É muito importante para o líder gerir a escola bem e configurar os sistemas e estruturas que permitirão que ela seja um lugar seguro e bem organizado, propício à aprendizagem.
É possível criar um bom líder ou algumas pessoas simplesmente não têm as características necessárias? Nós, enquanto reconhecemos que algumas habilidades podem ser desenvolvidas, também procuramos características específicas nos candidatos. São elas: integridade profissional, compromisso de diminuir as lacunas de aprendizado e trabalhar com estudantes de áreas mais vulneráveis, conhecimento pedagógico, resiliência (capacidade para se recuperar de derrotas e seguir em frente) e postura aberta ao aprendizado. Já as habilidades que podem ser aprimoradas na academia são: supervisão pedagógica, comunicação, resolução de problemas, análise de dados e planejamento estratégico.
Você acredita que é possível implantar um sistema similar ao da cidade de Nova York em outros países, como o Brasil? Os sistemas de ensino devem primeiro reconhecer a importância da liderança, enxergá-la como uma forte alavanca para impulsionar e melhorar o aprendizado dos estudantes. Depois, devem identificar, treinar e dar suporte a estes líderes para que tenham condições de melhorar as escolas em que atuam. Cada sistema de ensino é único e deve identificar seus próprios padrões de liderança. Com isso, serão capazes de enfrentar o contexto e as necessidades locais.

Diretor escolar deve agir com base na comunidade


29 de maio de 2012

Diretor escolar deve agir com base na comunidade, diz educadora dos EUA
Irma Zardoyra, dos EUA, apresentou projeto nesta segunda em SP. Academia treina diretores para atuarem em escolas problemáticas
Fonte: G1
A especialista em educação Irma Zardoya, presidente da Academia de Liderança da Cidade de Nova York (NYCLA), dos Estados Unidos, defendeu, na manhã desta segunda-feira (28), em São Paulo, que os diretores de escola devem planejar sua gestão tendo como principal base o contexto da comunidade escolar.
Em debate sobre gestão educacional promovido pela Fundação Itaú Social, Irma afirmou que cada escola tem a sua própria realidade, e um trabalho bem sucedido de gestão escolar deve levar em conta os resultados dos estudantes e o nível de apoio que o corpo docente recebe das famíílias. "Compreender o ambiente em que vivem as crianças é muito importante", disse.
A NYCLA desenvolve o Programa de Diretores Aspirantes (APP, na sigla em inglês), que oferece um curso de cerca de um ano a professores que querem atuar como diretores de escolas. Desde 2010, 423 professores passaram pela formação, que inclui em média um curso intensivo de seis semanas durante o verão (época de férias escolares) e um estágio remunerado de dez meses em uma escola, onde o aspirante a diretor trabalha orientado por um diretor aposentado, que atua como uma espécie de tutor.
O custo do projeto, segundo Irma, é alto - nos primeiros quatro anos, a academia levantou cerca de R$ 160 milhões para custear os salários dos formadores e dos aspirantes -, mas o resultado tem valido a pena, diz. Inicialmente, organizações não-governamentais e empresários ajudaram a pagar pelo APP, mas hoje o projeto é bancado pelo Departamento de Educação da cidade.
Dois terços dos diretores formados na NYCLA atuam como diretores das escolas mais problemáticas de Nova York. Mais da metade das escolas estão em distritos mais pobres da cidade, como o Bronx e o Brooklyn, e 75% dos alunos matriculados nas escolas destes diretores vêm de famílias de baixa renda e se qualificam para benefícios do governo como auxílio-alimentação.
Fechamento de escolas fracassadas
O compromisso do chanceler municipal de Educação e do prefeito de Nova York com a melhora do sistema educacional exigiu medidas drásticas como o fechamento de escolas. "Depois que as mudanças foram feitas, mas não surtiram efeitos, o chanceler e o prefeito decidiram fechar as escolas, principalmente as escolas de ensino médio muito grandes, com mais de 2 mil alunos, e abrir várias escolas menores, começando do zero", explicou Irma.
Segundo ela, o investimento de construir uma escola do zero foi maior que manter as escolas grandes, mas em poucos anos notou-se uma melhora na taxa de aprovação dos estudantes. "Escolas com muitos alunos recebiam muito dinheiro, mas isso não trazia retorno", disse.
Outra proposta, implementada gradualmente, é a redução da burocracia na gestão escolar, para dar o diretor mais tempo de atuar junto aos professores, e apoiá-los na detecção de necessidades de melhoria no currículo e no trabalho em equipe. "Se você quer atrair os grandes líderes, você precisa dar a eles a possibilidade de terem autonomia para moverem a escola na direção que eles querem", explicou ela. Na NYCLA, os aspirantes a diretores atuam em duplas e são incentivados a fazer o mesmo com os professores, para perceber quais têm perfis de liderança e podem auxiliar na união de toda a equipe em torno dos objetivos.
Brasil
Irma, que participou de um debate com Maria Helena Guimarães de Castro, coordenadora do núcleo de Educação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), Roseli Mori, secretária de Educação de Ferraz de Vasconcelos, Ana Paula Tavares da Silva Torres, diretora da EMEF Sara Tineue, de Ferraz de Vasconcelos, e Teca Pontual, gerente de projetos da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, disse ainda que o Brasil enfrenta problemas similares aos dos Estados Unidos, e que um plano de ação para melhorar o padrão de escolas brasileiras não seria muito distinto do que se ensina em sua academia.
Ela citou três passos principais no desenvolvimento de lideranças. Primeiro, é necessário decidir o que o diretor quer fazer na escola, o que seus professores devem saber e qual o objetivo da gestão. Depois, Irma sugere a criação de padrões para medir o sucesso do projeto. Por fim, o currículo escolar deve ser montado sob medida, com base nos dados dos estudantes e na realidade das comunidades.
Um exemplo de aproximação entre professores e pais aplicado por um dos diretores foi enviar seus docentes às casas dos alunos de suas turmas, antes do início do ano escolar. Segundo Irma, o efeito é duplamente positivo: os professores acabam conhecendo melhor a realidade de seus alunos quanto os pais passam a confiar mais na dedicação do docente.
Violência na sala de aula
A união de todos os lados em torno do projeto é fundamental, de acordo com a especialista, especialmente nos casos das escolas consideradas problemáticas, com dificuldades disciplinares e péssimos índices acadêmicos. "Uma escola precisa ser segura e ordenada. Sem isso, ninguém pode ensinar, e ninguém pode aprender. O aluno precisa saber o que se espera dele, e o professor precisa conhecer seu papel", diz.
As escolas com altos índices de violência são, na opinião dela, locais que perderam o controle dos estudantes porque não lhes ofereceram nada de interessante. "Escolas perderam o controle porque as crianças vão à escola e não há nada lá que as interesse, elas não querem estar lá."